Sunday, July 06, 2008

Baile Átha Cliath

Domingo nunca é um dia verdadeiramente inspirado para mim, acho sempre os domingos demasiado deprimentes. Mas como tenho que escrever sobre a última viagem antes que me esqueça, cá vai. A ver se sai algo com cabeça, tronco e membros. Cabeça, tronco e membros? É estúpido, como é que um texto tem cabeça, tronco e membros? Ainda compreendo a cabeça (título) e o tronco (corpo do texto). Mas membros? Espera, podem ser as notas de rodapé e legendas...pode ser...mas então este texto vai ser deixado desmembrado.
Dublin. Foi a última viagem que fiz. Poderia dizer que foi uma desilusão. Mas não vou fazer isso. Não vou fazer isso porque já parti para lá com expectativas demasiado baixas logo, não houve desilusão. Tenho amigos irlandeses, ou amigos que lá viveram, que sempre me disseram que Dublin é uma cidade que se vê em dois dias (ou em um dia, consoante a pessoa). É relativamente pequena, e os marcos históricos não são nada por aí além. Por aí além? É outra daquelas expressões que não faço ideia o que significa ou donde vem. Ou para onde vai. Mas com o novo acordo ortográfico, provavelmente vai mesmo ser apagada do dicionário.
Dadas estas premissas, e dado qua já quase não há dias de férias para gozar, decidimos apanhar o primeiro vôo no Sábado de manhã, e voltar no Domingo à noite (à hora da final do Euro...coños!).
Para apanharmos o vôo das 6h da manhã em Heathrow, lá tivemos que passar a noite (quase) em branco para apanhar um táxi por volta das 3h30 e estar em Paddington às 4h e pouco, para apanhar o primeiro comboio para o aeroporto às 4h40. A estação estava completamente vazia, nem comboios, porque chegámos demasiado cedo. Mas havia já algumas pessoas: ou que iam para o aeroporto, ou que tinham acabado de chegar dos bares. Destas, havia duas raparigas, completamente inconscientes a dormir na fila de bancos à nossa frente. Deviam ter chegado à estação podres de bêbedas (é um tema que será desenvolvido adiante), provavelmente perderam o último comboio e acabaram por adormecer por lá mesmo. Completamente dobradas sobre si próprias, com as cabeças entre as pernas, estilo contorcionistas do circo, com as malas largadas num banco ao lado ou no chão. Se naquele dia chegaram a casa ilesas, tiveram muita sorte...às tantas uma lá acordou e tentou acordar a outra. Só depois de uns quantos pontapés e chapadas é que a outra acordou. De nada serviu. Esteve uns 10mins a tentar focar a visão para tentar ler o que diziam os placards, mas às tantas desistiu e voltou à posição inicial.
As etapas seguintes até sairmos do aeroporto em Dublin foram as do costume com uma excepção. Tivemos que passar dois controles de passaportes ainda em Londres. Ainda estou para perceber porquê. Mas à vinda não tivemos que passar por nenhum. Saí do avião directo para a saída do aeroporto.
Chegámos a Dublin cedinho. Esperava-nos o tempo tipicamente irlandês. Chuva torrencial. E como é Verão e por príncipio, nesta altura, só uso roupa de Verão, levei apenas um par de calções e nenhumas calças...
Mas depois vim a descobrir que é intermitente. Só chove de meia em meia-hora...
Do aeroporto à cidade é rápido, são uns 20/3o mins de autocarro. Comprámos um passe de 3 dias que nos permitia andar em qualquer autocarro, inclusivamente nos das tours.
O centro da cidade é relativamente pequeno e vai-se a todo o lado a pé, inclusivamente à margem sul. A cidade é dividida em duas, pelo Rio Liffey, mas todas as pontes têm travessia pedestre, dado que o rio não é muito largo.
Primeiro tomámos o pequeno almoço no centro, para termos logo o choque da exorbitância dos preços. Apesar de em Euros, era tudo mais caro que o equivalente em Libras, em Londres. Especialmente na alimentação. Uma refeição normal deve andar à volta dos 15/20 euros.
Depois disso, fomos directos aos autocarros turísticos para fazer a tour. Uma hora e meia demora a tour. E passa em tudo o que é relevante. Decidimos que o primeiro sítio onde queríamos parar na tour era a fábrica da Guinness. Foi o que fizemos. São 7 andares onde mostram todo o processo do fabrico da cerveja, e no topo tem um bar panorâmico onde se tem uma vista de 360º sobre Dublin. Ah, e oferecem uma pint de Guinness. O que não me entusiasmou muito, mas provei a da Vera. Alcóol ou não, ainda só eram 11h da manhã, e a essa hora nem coca-cola...E seja como fôr, a Guinness é demasiado amarga....
Depois disso voltámos no autocarro para o centro para o resto da tour. Pasámos pelos museus de História Natural, Arte Moderna, Museu Nacional, fábrica da Jameson (como vêem o tema da bebedeira está sempre presente), Phoenix Park (o maior parque público da Europa e onde é a residência oficial do Presidente), St. Stephens Green, Biblioteca Nacional, Grafton St. e a restante zona comercial, entre outras paragens que decidimos visitar em mais detalhe mais tarde.
Chegou a hora de almoço e, depois de irmos almoçar a um restaurante italiano cheio de polacos (outra característica de Dublin, polacos, não sei porquê mas estão por todo o lado), fomos até ao hotel, que era ali no centro, até porque Dublin não tem muito mais do que isso, e lá descansámos um pouco, para depois irmos até Temple Bar, que é a zona dos bares, estilo Bairro Alto dos irlandeses.
Antes de chegarmos a Temple Bar, pelo caminho, parámos em Trinity College que é a maior e mais antiga universidade irlandesa. Pudemos entrar e visitar o campus e os jardins.
Em Temple Bar foi onde que me comecei a aperceber do porquê da reputação dos irlandeses de beberem muito. Quando fomos almoçar, os bares já estavam cheios. A esta hora, já se notavam os efeitos. Já estavam cá fora a vomitar-se todos...e ainda pouco tempo passava do almoço.
Outra coisa que me impressionou muito foi a quantidade de mendigos. Muito mendigo na rua, deitados por todo o lado ou podres de bêbedos a cambalear. Difícil encontrar um multibanco onde não esteja um mendigo a pedir...mas não é nada que não exista em Arroios.
Depois de uma volta por Temple Bar andámos a pé pelo centro. Dirigimo-nos ao Castelo de Dublin, tendo passado antes pela Câmara Municipal. Uma característica dos monumentos de Dublin é que a fachada de quase todos é de estilo arquitectónico clássico, com um frontão triangular e colunas, por isso não se admirem se as fotos parecerem todas iguais. A Câmara é um bom exemplo disso. O Castelo não é o normal castelo medieval, é mais um conjunto de edíficios de diversas épocas diferentes que nem parece uma fortaleza. Nesse dia, ainda conseguimos passar por Grafton Street que é uma das zonas mais comerciais, onde está a maior parte das lojas, ao estilo de Oxford Street. Também é aqui que está a estátua da Molly Malone, um dos ícones de Dublin, de quem se diz que seria peixeira de dia e prostituta de noite...ou seria ao contrário?
Ainda caminhámos até St. Patrick's Cathedral ao final da tarde, não conseguimos entrar porque já estava fechada, e para variar a foto ficou estragada pelos malditos andaimes que insistem em estar nos mais famosos monumentos dos sítios que visito.
Este dia foi longo. Ainda fomos ao hotel e só depois saímos para ir a Temple Bar jantar e dar uma voltinha à noite. Havia muitos artistas de rua, muita gente (sóbria) e muitas despedidas de solteiro, que aparentemente é moda para os Ingleses lá irem em grupos fazer.
Uma curiosidade - um pouco por toda a cidade havia grafittis e tags com "No To Lisbon", pois pouco tempo antes tinha sido o referendo acerca do Tratado de Lisboa, e pelos vistos a campanha pelo "Não" foi mais aguerrida.
No Domingo, segundo e último dia, acordámos cedo para ir visitar os outros marcos que nos faltava ver.
A primeira coisa depois do pequeno-almoço foi irmos para a prisão de Kilmainham Gaol. É um dos locais com maior história da Irlanda pois era aqui que ficava a maioria dos presos políticos em especial os relacionados com as insurreições e era também onde se faziam as execuções. É também cenário de diversos filmes como o "Em Nome do Pai" e "Michael Collins". É impressionante não só pela arquitectura e história, mas principalmente pela atmosfera que é arrepiante se se pensa no que ali se passou.
Dado que a prisão é um pouco afastada do centro, voltámos de autocarro para a zona de Christ Church que é outra Catedral. O que também me surpreendeu foi o facto de ter que se pagar sempre para entrar nestas igrejas, algo que na minha opinião deveria ser de entrada livre.
Perto de Christ Church tem uma zona dedicada às invasões vikings, que quando invadiram Dublin a "baptizaram" de Dvblinia! Ora, não sei que raio de Vikings invadiram a Irlanda, mas com nomes destes deviam ser larilas.
Ainda era cedo, mas como pouco faltava para ver decidimos ir dar um passeio pelas margens do Liffey para depois irmos almoçar numa esplanada nos 20mins de Sol que houve o fim-de-semana todo. Depois mantivemo-nos no centro para irmos tratar das compras das recordações para a família e amigos e passearmos pela avenida principal, que também tem a sede dos Correios, mais um edíficio de arquitectura clássica. E foi assim até ao final da tarde. Dali mesmo sai um autocarro que demora 20/30 mins até ao aeroporto.
Quando lá chegámos descobrimos que o avião estava atrasado. Acabámos por ver a Final do Euro num bar do aeroporto (coños!) e só depois do apito final e da entrega da taça é que embarcámos.

De seguida, foi só esperar mais umas semanitas para ir a Portugal fazer férias a sério, mas mais sobre isso depois!

1 comment:

Anonymous said...

Guinness as 11h da manha...humm...maravilha!